Mães invasivas, filhas esvaziadas: formas de submissão e devastação nas relações mãe-filha
- Ana Beatriz Manier
- 23 de mai.
- 8 min de leitura
Mães invasivas, filhas esvaziadas:
Formas de submissão e devastação nas relações mãe-filha
Ana Beatriz Manier
Corpo Freudiano Nova Friburgo
Indo um pouco além da violência doméstica perpetrada por homens contra as mulheres, embora de forma alguma reduzindo sua existência factual e seus danos, esse trabalho busca abordar outra forma de violência comum em muitos lares – que pode ou não coexistir com a violência masculina – porém pouco abordada como tal: a violência simbólica presente em algumas relações entre mães e filhas.
Se pelo viés da Sociologia e do Direito, a violência doméstica é entendida como fenômeno sociocultural que se dá por conta das estruturas patriarcais que há séculos subordinam mulheres ao domínio dos homens, pelo viés da psicanálise ela é entendida como um modo de vínculo atravessado por conflitos com a lei simbólica, com o desejo e com formas de gozo que escapam ao controle consciente.
Para falarmos da violência simbólica presente em algumas relações mãe-filha, como uma dinâmica que se repete, transmite e se sustenta no inconsciente, produzindo sofrimento e aprisionando os sujeitos em relações marcadas pela dominação, nos utilizaremos da psicanálise, sem, no entanto, desconsiderar a estrutura patriarcal que até hoje se encontra na base do arranjo social que a propicia.
Comecemos passando brevemente pelo Édipo em seus três tempos, segundo a releitura lacaniana da teoria de Freud (Lacan, 1957-1958). É no primeiro tempo do Édipo, a partir da figura materna, que a criança tem uma primeira vivência no mundo externo, vivência esta que traz desconfortos e desprazeres que a criança expressa pelo choro, e choro este que a figura materna, imbuída de desejo, procura interpretar continuamente para atendê-la e acalmá-la. Essa relação inicialmente simbiótica estabelecida entre a mãe (falo imaginário da criança) e criança (falo simbólico da mãe) perdura pelos anos iniciais da primeira infância e coloca a criança numa relação de assujeitamento ou simbiose ao Outro materno, então, onipotente (Lacan, 1956-1957). Uma vez que a satisfação das necessidades do bebê depende inteiramente da interpretação que a mãe dá as suas manifestações, nos diz Faria: “Não há, nessa etapa, satisfação que não passe pela significação atribuída a seu grito (da criança) pelo Outro Materno”. (2023, p.56)
É no segundo tempo do Édipo que Lacan assinala o rompimento dessa simbiose da criança com a mãe, pela intervenção de um terceiro elemento para quem esta dirige sua atenção: o pai ou a metáfora paterna. Esse acontecimento é um ponto nodal do complexo de Édipo, pois com a entrada desse terceiro e a presença agora intermitente da mãe, cai a ilusão de a criança ser o falo para ela, assim como a mãe vai deixando de ser o falo imaginário da criança, posição que será dividida com o “pai privador”, estabelecendo nova configuração à casa.
Acontece que para que isso se dê de forma saudável, é preciso tanto que a mãe deixe esse pai se estabelecer, de fato, como interventor e privador, quanto que esse pai esteja apto a exercer essa função, para que, na alternância da presença-ausência materna, a criança possa dirigir um apelo amoroso a ele e “articular a passagem do pai onipotente e privador para o pai doador”. (Faria, 2023, p.85) Esse é o terceiro tempo do Édipo, tempo do qual meninos e meninas saem de forma diferenciada – enquanto o menino sai pela interdição/identificação com o pai/lei, e “conclui” seu édipo, a menina, que não encontra uma estruturação/identificação semelhante com o pai, volta a recorrer à mãe com quem se identifica de forma ambivalente (ela foi o primeiro amor, a rival, a feminina e o Outro onipotente), ficando suscetível a sentimentos de amor e ódio, admiração e rejeição por ela.
Quando mães não conseguem se separar suficientemente de suas filhas – de agora em diante, focaremos na relação mãe-filha, objetivo desse artigo – e permitir que o desejo de ambas vá para outros objetos, é porque algo ocorreu no estabelecimento da função paterna. No retorno natural da menina à mãe postulado pelo Édipo, a forma como ambas lidarão com o resto da relação de dependência do primeiro tempo, junto com a ambivalência que essa reaproximação acentua, é crucial para o processo organizador da subjetividade feminina.
Pensemos num exemplo clínico, para avançarmos um pouco mais nessa reflexão:
Tina, 18 anos, narra, com certo orgulho e ar de maturidade, uma experiencia sexual vivida aos 15 com um homem de quatro vezes sua idade. Segundo ela, envolveu-se com ele porque o namorado de 20 a rejeitava sexualmente. Fazer sexo com esse homem lhe trouxe a confirmação de que nada havia de errado com ela e também de que ela (isso aparece após um tempo de análise) conseguia ter alguém da idade do pai, sugerindo aí uma falha da mãe.
Os pais de Tina (ambos com históricos familiares de violência) se separam quando ela tinha 4 anos, o pai ameaçava matar a mãe de formas variadas. Seu pai teve outros dois casamentos, e a mãe, mulher embrutecida e de poucas palavras, manteve-se só, cuidando de Tina e sustentando a casa. Sempre criticou a menina por sua desorganização, por notas baixas e por sua falta de atenção para com ela, (mãe). Descobriu o envolvimento da filha com o homem mais velho, ao vasculhar escondido seu celular. Criticou-a duramente, a expôs para toda a família e dividiu a situação com o ex-marido, que resolveu processar o homem. Tina interferiu em defesa e confronto, dizendo que o sexo foi consentido. A mãe, sem saber lidar com a situação, mandou a menina viver com o pai violento, que a chamava constantemente de vagabunda.
Na casa do pai, ela sofreu restrições de comida, água quente para banho e foi retirada de escola particular para rede pública. Tina parou de estudar, pediu socorro à mãe, que a mandou viver com uma tia, tão bruta quanto ela. Não deu certo. Voltou para casa da mãe, onde ambas, desde a separação dos pais, dividiam a mesma cama. Para fugir das críticas maternas, Tina passava o maior tempo possível fora de casa e, quando em casa, dormia. Essa dinâmica durou alguns anos.
Hoje, Tina namora um homem bem-sucedido, com mais que o dobro de sua idade, que tem o mesmo nome de seu pai e que também é seu patrão. A família apoia esse relacionamento, e tanto a mãe quanto a tia usufruem dele por meio de favores e ajuda financeira.
Uma vez perguntada pela filha se quisera ter filhos, a mãe não soube responder. Quando perguntada sobre o que esperava dela ao crescer, a resposta foi: Que você fosse bonita. Recentemente acidentada e cobrando assistência integral da filha, a mãe de Tina lhe disse que quem deveria ter se acidentado era ela, por ser mais nova. Comentário devastador.
Tina é uma jovem mulher muito bonita, de escrita poética, doída, e olhar sensível para fotografia. Tem fala e gestos duros como a mãe, dificuldade de falar de suas fragilidades, choro preso, e um sentimento de menos valia. Durante o processo de análise, conseguiu concluir o Ensino Médio. Tem dependência emocional do namorado e indecisão quanto a que caminho profissional seguir na vida – seu desejo de estudar algo que lhe faça sentido lhe parece impossível, e é várias vezes substituído por um discurso desimplicado de si: Vou fazer qualquer curso só para ter um diploma.
Atende a várias ligações e demandas da mãe, de quem espera um reconhecimento que nunca vem. Não dormem mais na mesma cama, embora no mesmo quarto, por causa de tamanho do apartamento. Não fala com o pai.
O fato de existir um pai empírico na família difere da existência de um pai Simbólico e não corresponde ao pai Real. Para Lacan, há três funções estruturais distintas que operam no Édipo: o pai Imaginário, o pai Simbólico e o pai Real. Sendo o pai Imaginário aquele com quem a criança rivaliza e teme; o pai Simbólico aquele que intervém ao estabelecer a proibição do incesto e o dom da falta pelo laço afetivo; e o pai Real, que sustenta o impossível de ser simbolizado: cortar o gozo da relação mãe-filha, ao barrar a mãe (Lacan, 1956-1957).
Um pai violento como o pai de Tina – excessivamente gozoso, que invade o campo do sujeito tanto da mãe quanto da filha – ao invés de operar como função paterna simbólica da lei e da separação por meio do vínculo, mantem-se como função imaginária a quem Tina e a mãe temem, não cortando o gozo da relação mãe-filha (gozo do outro), mas deixando a criança ficar capturada no gozo da mãe. A mãe, objeto do marido, sem lugar de sujeito em sua relação com ele, faz da filha não só um objeto de controle, mas também de humilhação, provocação e meio para atingir seu homem.
Olhar escondido o celular da filha, expô-la ao julgamento da família, mandá-la morar com o pai e depois com a irmã. Como dinâmica da convivência, manter a filha dormindo na mesma cama ou mesmo quarto e mantê-la como alvo diário de críticas, mostram a impotência simbólica dessa mãe enquanto tal e acentuam a ambivalência amor-ódio, aproximação-separação já vividas na fase edipiana.
Suas frases devastadoras: Eu esperava que você fosse bonita e É você quem deveria ter se acidentado junto com os favores de que usufrui do namorado da filha, ratificam a posição de Tina como objeto de gozo materno, lugar do qual ela tem dificuldade de sair. A opção por um curso qualquer que lhe dê um diploma em vez do curso de Psicologia e a dependência emocional do namorado mais velho a mantem no lugar de não merecimento e assujeitamento vividos na relação familiar.
Esse tipo de relação gozosa entre mãe e filha é comumente visto na clínica. Não se trata, porém, de uma perversidade consciente da mãe, de uma culpa individual dela, mas sim de uma dinâmica estrutural produzida dentro de um contexto anterior em que também houve submissão, onde essa mãe foi submetida, silenciada, ficando sem lugar simbólico de fala, (Lobo, 2018). Caso da mãe de Tina.
Silvia Lobo (2018), psicanalista paulista, usa o termo “mãe distraída” para se referir às mães que, reféns da estrutura em que foram criadas, falharam simbolicamente em se fazer mães suficientemente boas para suas filhas; filhas que vem a precisar de psicanálise e que trazem para a clínica um sentimento de menos valia e de grande insegurança quanto às possibilidades de realização de projetos pessoais, profissionais e amorosos. Sentimentos dolorosos que remontam a momentos da primeira infância em que, espelhadas na mãe, sentiram-se inferiorizadas, não vistas em sua singularidade, por conta da ambivalência de sentimentos (ora delas, ora da própria mãe) que a relação edipiana traz naturalmente em si.
Mães quase invisíveis que não se apresentam como suficientemente boas, nem tampouco como reconhecidamente nocivas e que, no exercício da função materna, sem culpa, remorso ou vergonha, discretamente causam uma mutilação psíquica, sorrateira, subterrânea e, algumas vezes, definitiva naqueles que trouxeram ao mundo, (Lobo, 2018, p.11)
Inegável considerar a existência de uma estrutura patriarcal, organizada em torno da função fálica, em que poucos papeis eram permitidos às mulheres além do casamento, do cuidado e da maternidade. Séculos em que ser mãe era um destino ligado à biologia do corpo feminino e não ao desejo de sê-lo. À mulher cabia a posição de objeto de desejo do Outro, e não de detentora do próprio desejo, posição que ainda hoje, mesmo com mudanças sociais importantes, segue atravessando a experiência subjetiva de muitas mulheres. (Iaconelli, 2023)
Mulheres que não puderam ocupar um lugar de sujeito na própria história tendem, sem saber, a capturar as filhas no lugar de objeto, reproduzindo a lógica de apagamento e silenciamento a que foram submetidas.
A relação mãe-filha, conforme todo o exposto aqui, quando marcada pela falha da função simbólica paterna, pela dificuldade de separação, e ainda agravada pelas inúmeras violências dirigidas às mulheres, pode se organizar como um campo de gozo que aprisiona ambas em posições de submissão e devastação subjetiva. Na clínica, o sofrimento da filha, portanto, não é apenas pessoal, mas efeito de repetições inconscientes que atravessam o ambiente familiar por gerações e gerações.
A aposta da psicanálise não é a de culpar gerações anteriores por falhas e posturas, mas oferecer um espaço onde o sujeito possa se separar de identificações aniquiladoras, localizar seu próprio desejo e construir saídas para além das posições herdadas.
Ao possibilitar que a filha deixe de ocupar o lugar de objeto do gozo materno e possa se reposicionar frente ao próprio desejo, abre-se a possibilidade de quebrar a repetição e encontrar novas formas de posicionamento.
Referências Bibliográficas
· Faria, Michele Roman. Constituição do sujeito e estrutura familiar. Taubaté – SP: Editora e Livraria Cabral Universitária, 2023.
· Iaconelli, Vera. Manifesto Antimaternalista: psicanálise e políticas de reprodução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2023.
· Lacan, J. Seminário 4: a relação de objeto (1956-1957). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
· Lacan, J. Seminário 5: as formações do inconsciente (1957-1958). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
· Lobo, Silvia. Mães que fazem mal. São Paulo: Editora Pesavento, 2018.
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