Sobre o desejo do analista à nomeação De Analista Membro da Escola
- Ana Beatriz Manier
- 23 de mai.
- 10 min de leitura
Antes, uma breve introdução.
Querer tornar-se psicanalista nasce de um desejo. Um desejo que, no entanto, para muitos, no primeiro momento, e, para alguns, ao longo da formação, poucas vezes tem a ver com o que se imaginou lá, quando o desejo bateu. O desejo genuíno pela psicanálise é mais difícil de se sustentar do que se imagina. Dizemos isso com base nas entrevistas preliminares de quem entra na escola e depois de algum tempo comunica sua saída.
As motivações de quem nos procura para estudar na escola são inúmeras. A mais genuína vêm da transferência desenvolvida na própria análise. A mais comum vem de alunos de psicologia que veem a psicanálise como mais uma abordagem psicológica. A mais ingênua vem de pessoas que acham que a psicanálise pode vir a ser uma ocupação/fonte de renda secundária ou para os anos de aposentadoria.
Nenhum desses desejos, porém é garantia de nada. Um desejo vindo da transferência, pode se mostrar equivocado, temporário, pois não raro traz consigo motivações “fraternas, de retribuição” ou traços egoicos, que almejam um lugar de “saber e influência sobre a vida alheia”. Essas motivações normalmente vêm acompanhadas das justificativas: “Quero me tornar psicanalista para ajudar os outros”; “Foi tão grande a virada na minha vida, que quero passar isso adiante”, “Quero curar a dor das pessoas“. No que tange a alguns que vêm da psicologia, o desejo também pode logo escoar pela grande divergência da psicanálise com as abordagens comportamentais tão em voga na nossa contemporaneidade apressada. Mais rápido (e lucrativo) lidar com fórmulas eficientes, questionários perspicazes, técnicas de adaptação, positividade e sugestão do que convidar o paciente para uma jornada que não se sabe finita ou infinita. Para os que pensam a psicanálise como fonte de renda ou ocupação, o desejo, em geral, logo sofre um baque, dada a complexidade e extensão de seus fundamentos teóricos e a ausência de diplomas, certificados, carteirinhas. “Não era isso o que eu pensava”.
O desejo pela psicanálise e pelo querer tornar-se psicanalista nasce, de fato, pela experiência da própria análise pessoal, da relação transferencial e, mais ainda, quando dessa relação surge a curiosidade pelo enigma. Sim, o enigma do Inconsciente, dele que fala e transborda em nós e por nós, que ora nos paralisa ora nos faz seguir. Se não somos senhores dentro da própria casa, como funciona essa instância tão voluntariosa e demandante que nos assenhora? Como escutá-la? O desejo de tornar-se psicanalista, diferente do desejo de ajudar, curar, revirar é o desejo de escutar e de sensibilizar o outro para sua própria escuta, para que ele perceba a própria fala, os sentidos que ela traz e se torne mais consciente de sua história, trajetória e movimentos. “O analista deve ser para o paciente como um espelho, que nada mostra senão o que lhe é mostrado.” (Freud, Sobre o início do tratamento, 1913).
Não é um desejo por uma “cura”, pois não curamos ninguém de sua condição de humano, mas por um melhor viver possibilitado pela escuta de um saber que já existe dentro de cada um e que precisa ser manifestado. (Observação: “Cura” é um termo por vezes usado por Freud, mas não no sentido de uma cura médica e sim no de um processo de maturação).
Desejo de analista reconhecido, parte do caminho andado. Em sequência, é preciso haver atitude: a primeira, escolher uma boa escola de formação. Entre elas, a nossa em seus diversos núcleos e seções.
Como tem funcionado a Formação Fundamental no Corpo Freudiano Nova Friburgo
Acreditamos que não haja muita diferença na forma como funcionam os outros Corpos. Temos, hoje, na Formação Fundamental, seis módulos: Narcisismo, Édipo e Castração, Introdução às Estruturas Clinicas, Introdução aos Conceitos de Inconsciente e Pulsão, RSI e Transferência e Repetição. Temos seminários quinzenais sobre a prática clínica – atividade da Secretaria Clínica – em que um membro da escola apresenta um texto do livro que estiver sendo lido. Na formação permanente, da qual, vale lembrar, a formação fundamental é parte integrante, temos grupos de leitura de Freud, Lacan e comentadores, e também de temas abordados por autores contemporâneos, numa constante articulação da teoria com o tempo presente e os novos sintomas que a cultura produz, Lemos recentemente: Transexualidade, Manifesto Anti-maternalista, A Saga do feminino na mulher: a misoginia à luz da psicanálise, A constituição do sujeito. Estão na lista os títulos: A cor do consciente, de Isildinha Batista, Descolonizando Afetos, de Geni Nuñez, Psicanálise e Pornografia, Eric Bidaud. A ideia é abrir diálogos sobre temas que estão sempre presentes em nossos consultórios. “Abrir diálogo e nunca fechar”.
Temos site próprio, onde divulgamos a programação da escola, assim como mídias sociais. Instagram e Facebook. Temos um departamento de Marketing que faz nossos posts, vídeos e arte, que buscam contextualizar imagens com o tema do módulo.
Abrimos processo seletivo via formulário Google e entrevista, com o pré-requisito de que o candidato tenha curso de graduação completo e esteja em análise. Apresentamos a escola, os módulos, a ementa do semestre. Explicamos que para ser um analista em formação, é necessário que o candidato assista às aulas aos sábados, às aulas quinzenais de quartas-feiras, e participe de um grupo de estudo. Passamos lista de frequência. Pedimos que assistam às transmissões com a câmera aberta.
Ao final de cada módulo da Formação Fundamental, solicitamos um trabalho escrito sobre o tema estudado, e que esse trabalho seja apresentado na jornada de trabalhos. Acompanhamos a frequência, o interesse, a interação.
Então entra-se para a escola, segue-se o que é pedido e tudo certo? Não, há que se vencer a angústia do não dar conta. Do não estou entendendo. Há de se lidar o “não–tudo”.
Os que estão na estrada há muito tempo, a maioria de vocês, talvez não se lembre de como são angustiantes as primeiras transmissões e leituras, o quanto tudo demora a ter nexo. A complexidade do funcionamento do sistema psíquico, as sistematizações freudianas, o estilo de escrita da época, os alicerces teóricos literários e científicos aos quais Freud faz referência em sua teoria e suas elucubrações – as quais constantemente revê e acrescenta reformulações – nada disso é de fácil leitura, entendimento, assimilação. É preciso um bom tempo de processamento e acomodação. Um tempo que não se conta em dias, mas em anos. Os seminários de Lacan, sua releitura dos textos freudianos, seu raciocínio ramificado, esquematizado, seus aforismos que chegam a nós num fluxo de fala/consciência transposto para a escrita faz, nos primeiros anos do estudo, com que nos sintamos insuficientes, incapazes em nossa capacidade de entendimento.
Acompanhar esses homens que nos levam até às gônadas dos pombos, às lentes de um telescópio, ao funcionamento do nervo ótico, e a matemas com caracteres gregos, para nos falar de como funcionamos psiquicamente nos dá a impressão de sermos semianalfabetos de nós mesmos.
A simultaneidade. “Pegamos o bonde andando”, nem sempre é possível seguir uma ordem que poderia dar mais sentido ao que se abre a nossa frente. Os conceitos já estão ali desde o inicio, na mesma simultaneidade do funcionamento mental. Quando começamos a estudar, unem-se ao desejo ansiedade e frustração. Talvez a maioria aqui não se lembre o quanto passar por isso é angustiante. Não à toa o maior índice de evasão da escola é ao final do primeiro módulo, no contato com a complexidade da teoria. Consideramos essa como a primeira prova a que um estudante de psicanálise se submete.
O que fazer para amenizar a angústia dos iniciantes e evitar a evasão, quando há desejo de continuar?
Ressaltamos que não há problema algum em um aluno sair da escola por não se identificar com a psicanálise. Percebemos que há muitos que, embora nos grupos de estudo e transmissão, nunca abrem suas câmeras, não participam das leituras, não respondem às nossas convocações. Acabarão não sendo convocados a ir adiante, e não irão. A cada um cabe a escolha do próprio caminho. Nos parece importante, porém, num contexto de transmissão da psicanálise, para os que insistem, abrir, um lugar para o medo, para a angústia do não saber e para o erro. Quem chega em busca de uma formação, por mais que tenha passado anos em análise e se considere familiarizado com os conceitos produzidos por Freud e Lacan, pode chegar pouco sabendo ou fazendo semblante de intelectual ou de estudante de psicanálise.
Ainda que a formação em psicanálise tenha traços particulares e exclusivos a si, como a sustentação da ignorância, o não-saber, a sua natureza interminável, a demanda por saberes de outras áreas, ela partilha um traço comum a todos os processos de aprendizagem: o constrangimento gerado pelo entrelaçamento entre a ignorância do sujeito, suas expectativas e receio de parecer menos diante dos outros, processo que afeta a vaidade e pode gerar censuras, impedindo que ele, o sujeito em formação, ouse errar se arriscar fazendo associações, de início, às vezes absurdas.
Devemos, assim, se acolhedores para que esse sujeito que chega possa (se) expor (a) o caos do aprendizado até que entenda seu modo de aprender, apreender, e crie uma intimidade com a metapsicologia freudiana, com a produção intelectual e teórica de Lacan e os demais produtos disponibilizados pela literatura psicanalítica. Acolher o sujeito que se lança nessa empreitada é também lhe emprestar autorização para exercer sua ignorância, seu nonsense, como partes atrativas de uma formação até que ela, a autorização de associar e propor se fortaleça nele. Esses movimentos fariam das escolas “escolas suficientemente boas” – para brincar com Winnicott –, permitindo ao sujeito experienciar aquilo que virá a ser a natureza da clínica: o sabido (em toda sua relatividade) da teoria psicanalítica, com o não-sabido do sujeito e a construção de sentidos necessária ao trabalho clínico.
Temos buscado, em nossas escolhas, transmissores mais didáticos, menos herméticos/filosóficos, que já chegam aqui cientes sobre as áreas de formação e o nível de estudo dos alunos. Durante as transmissões, pedimos mais detalhamento de pontos nodais e perguntamos nos grupos como o tema foi abordado, para vermos se houve transferência entre o transmissor e a turma. Compartilhamos textos, vídeos de apoio, artigos, filmes, posts de bons produtores de conteúdo. Dividimos comentários sobre a dificuldade de alguns conceitos e a necessidade de recapitulação. Isso pode parecer bobagem, mas não é.
A Secretaria Clinica e a Clinica Social: a teoria na prática. Sua grande importância.
Uma vez finalizado o percurso teórico da Formação Fundamental, com a participação ativa nos grupos de estudo e apresentação de trabalhos, convidamos as pessoas mais implicadas com a psicanálise a participarem da Secretaria Clinica, fazendo a apresentação de textos do livro que está sendo abordado. Esse convite, a nosso ver, é visto como um passo adiante, como um reconhecimento, uma convocação à transmissão e à junção da teoria com a prática clínica[1]. Aqui é quando o desejo de ser psicanalista, é posto à segunda prova.
Quando, ao final da formação fundamental o associado começa frequentar a Secretaria Clinica e a atender na Clínica social, nós o consideramos um Analista Praticante (de acordo com a Proposição de outubro) e lhe damos suporte em reuniões semanais. Ele pode até atender também analisantes de outras procedências, mas nesse caso de atendimento particular, agindo por conta própria, sem o aval do CFNF.
Uma vez na Secretaria Clínica, atendendo na Clinica Social, temos, semanalmente, a apresentação de casos clínicos (observando-se o que prescreve Freud a respeito: contribuição ao desenvolvimento da psicanálise e sigilo absoluto). Essa apresentação de casos vem sendo muito bem recebida pelos analistas praticantes, sendo também o dispositivo em que se faz uma supervisão coletiva. Essa escuta de casos clínicos se dá em grupo, os mais experientes, com mais tempo de escola e que se sentem habilitados, comentam os casos que vêm para discussão. Depois, todos comentam em conjunto. É muito rica a troca, pois vemos, nessa prática assistida, como o analista praticante assume sua posição frente ao sofrimento do outro. É estando nesse lugar que ele encontra e divide com a escola sua forma de receber o analisante, de inteirá-lo na dinâmica de atendimento da psicanálise, e dar inicio ao seu trabalho.
É na posição de analista, que o praticante experiencia o que é a transferência. É via escuta pela atenção flutuante, deixando o discurso do analisando emergir livremente, que ele pode perceber qual é a questão, a pergunta, qual a cena primordial que impacta sua vida. E é sob a transferência dirigida a si, na qual se projetam afetos, fantasias e repetições do analisando, que o analista aprende a manejá-la sem a interferência de seu próprio ego, sem se identificar com as imagens idealizadas, gentis ou hostis que o paciente deposita nele. Na Secretaria clinica, com a passagem pela clinica social, o analista praticante tem sua prática exercida, dividida e comentada, em que as questões acima citadas são observadas por nós.
De Analista Praticante à Analista Membro da Escola
Não temos um tempo determinado para que o analista praticante fique na Secretaria Clinica e busque o reconhecimento como Analista Membro da Escola. Concordamos que o momento desse novo passo deve se dar por uma autorização própria.
Hoje, porém, temos em mente a seguinte proposição: requerer do analista praticante que formule um depoimento, articulando seu processo de análise e de formação com a teoria, e o apresente ao colegiado em data acertada por ambos.
Utilizamos o termo AME (Analista membro da Escola), e não AE (Analista da Escola), pois, quanto às especificações aplicáveis aos analistas, seguimos a Proposição de 9 de outubro de 1967 sobre o analista da Escola.
AME e AE foram bem definidos na proposição de outubro, sendo AE aquele cujo testemunho foi aprovado no passe, e AME aquele que é considerado Analista pela Escola, cumprindo o ritual que ela estabelecer. O passe é uma questão ainda em aberto.
Enfim, assim se define o CFNF em relação a Freud e a Lacan, no que diz respeito tanto à formação do analista quanto ao tipo de analista que ela forma (AME), o único autorizado a valer-se do nome da Escola em sua clínica e fora da Clínica social do CFNF.
Como sabemos, uma analista nunca se forma, nunca está “pronto”. Sua formação é permanente, sem fim. Assim como são as questões que a todos afligem, as que surgem em nossos consultórios e sobre as quais sempre teremos o que ler, estudar, escrever. O que sustentamos no Corpo Freudiano Nova Friburgo é que uma formação fundamental teórica bem feita, acolhedora e articulada com uma Secretaria clinica atuante dá as ferramentas básicas para que um analista comece a atender. Se ele vai ou não seguir adiante, não sabemos. Mas para ser um Analista Membro da Escola precisará se manter associado a ela e atuante. Transmitindo, coordenando grupos, atendendo e sustentando seu desejo de estar aqui.
Colegiado do Corpo Freudiano Nova Friburgo,
com a revisão e colaboração de Mateus Ciucci e Gisele Calgaro.
[1] A intersecção teoria e clinica costuma ser preterida nas transmissões teóricas. Algo que nos propomos a corrigir a partir do próximo módulo com estudos sobre a clinica borromeana durante nosso módulo sobre o RSI: o discurso, pela interpretação do significante; a transferência; a posição do sujeito frente ao Nome-do-Pai como operador simbólico; o recalque/gozo; o Sinthoma...
Comentários